XXXV


Aprendi desde muito cedo que ser mulher não era muito bom. Vovô me dizia quatro vezes por dia, cinco vezes por semana:

─ Use seu charme como mulher e enfie a faca como homem!

Essa foi uma lição que me valeu muito!

Mas mesmo assim sou fragilizada pelo sentimentalismo, alimento o querer bem e me dou mal.

Não se gabe por ter salvo minha vida, não foi o único!

Meu avô preservou minha sanidade durante toda a fase mais difícil que vivi e me avisa ao ouvido até hoje quando algo pode me machucar demais.

Você não foi o único, trago uma cicatriz profunda em meu ombro esquerdo, de uma noite marcada com sexo, suor e sangue. Quem salvou-me foi um travesti mais esperto que eu.

Enfim, os homens são mais espertos que as mulheres, mais safos e sinto-me uma tola, traída e salva por eles.

Aliás, acho que as fêmeas não passam de joguete nas mãos masculinas, moeda de troca, de sedução e de poder.

─ Um sorriso por uma moeda! – dizia o vovô.

Aprendi na marra uma lição bem mais perversa e tracei minha vida sobre o inverso do que aprendi.

Quando fiz o caminho contrário ao que meu avô me ensinou quando criança: uma moeda por um sorriso, entendi a essência humana.

Agora é aprender até quando pagar para ver, ou fazer com que paguem para ver. Mas essa não é uma lição tão simples quanto a primeira. Se houvesse um limiar do suportável, como ter consciência de quanta verdade podemos suportar?

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