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A única constância é esse desespero, baby!

Mesmo as lembranças que vez ou outra me levam ao Colégio Diocesano, onde o toc-toc apressado dos sapatos envernizados e o sussurrar pelos corredores soavam pecado, não me deixam esquecer que desde o começo o impulso era o de me jogar contra os muros.

Os uniformes finamente engomados, as gravatas azuis como as saias e meias ¾ brancas revestiam esse desespero. Nem conhecia ainda as ruas da cidade baixa, muito menos o porto, mas naqueles dias de calor e febre, eles já chamavam por mim.

Tudo que fiz é embebido desse sentimento que me arrasta para o chão, baby!

Alimento-me do erro que prolonga minha existência, embora sinta que esse manco ético aumente ainda mais o peso de ser livre.

Já estou ancorada aqui há alguns anos e as ondas do cais do porto vêm me assombrar nas noites quentes.

Nunca gostei das casas que morei, nem mesmo essa que resido agora, grande demais, cheia de luxo e tão fria. Mesmo o nosso apartamento, decorado com um colchão mofado, caixotes e mesa de tapume, parecia-me luxuoso demais.

Nasci para as sarjetas, portos e pontas de rua!

Por quantas vezes fui pega escalando muros, quantas vezes fui surpreendida na ala masculina do internato?

Nem me lembro mais!

Já esperei e esperam muito de mim, não estou à altura de esperas e creio que foi um dos poucos que nada esperou de minha parte.

Cobram-me um preço alto demais por escolhas equivocadas, sofro por não me encaixar nas necessidades alheias, mas nem por isso desisto de ser quem sou.

Tentei, por muito tempo, vencer esse sentimento autodestrutivo que toma minha rotina desde que me entendo por gente. De me trancar com meninos nos banheiros masculinos no colégio e até me deitar com desconhecidos.

Lanço-me contra muros embolorados e densos, construídos por outras pessoas para conter o inevitável, para deixar de fora o que seja constrangedor.

Nem sei o quanto me estraçalhei, sem tirar um tijolo alheio do lugar!

As minhas vontades tiraram-me o uniforme, as meias ¾ e as saias plissadas que não me importunavam tanto. As camisas brancas e a gravata incomodavam, oprimiam-me o peito, apertavam a garganta, não me deixavam respirar.

Soava-me castrador a imposição do igual, uniformes, rotinas, contratos e hora marcada são fivelas de camisas de força.

Sei de meus pecados e não os ignoro, embora os julgue menos pesados do que não saber definir de maneira simplista onde me perco e porque desisti dos contínuos esforços para mudar minha atitude. 

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