XIV
O engraçado é querermos colocar no outro a culpa de nossos defeitos.
Não sei bem porque meu avô materno era meu ídolo, acho que por um tempo o amei mais que ao meu pai. Talvez por ele ser muito permissivo comigo, deveria ter me posto freios antes de eu desembestar!
Sinto que aquela frase foi pior do que ser estuprada ou cuspida por um estranho!
E acabo retornando àquela padaria cada vez que tenho que escolher algo.
Carrego o vício de não saber escolher, aliás, o mal é mais grave, não escolho nunca, dou-me apenas o direito eterno das pequenas dúvidas e das grandes desistências.
Minha inocência foi perdida ali, no meio daqueles doces, com o cheiro de baunilha no ar!
Para mim não era apenas escolher um e sim abdicar das infinitas possibilidades contidas em cada opção desprezada.
E a farsa continua e se repete como ciclos de sofrimento absoluto, eu me embriagando e seguindo caminhos perigosos de desistência.
Meu avô sussurrou-me ao pé do ouvido: “você pode escolher o que quiser, minha linda!” e assistiu inerte aos meus olhinhos pedintes e desorientados e não alcançou o mal que me fez!
Ah, Kerouac, ali começou minha saga de vícios e insatisfações!
Ah, vovô, ali descobri o que era livre e quão difícil é escolher!
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