XIX
Conseguia ficar horas velando seu sono, como se uma loucura me tomasse os olhos e trouxesse-me a quietude quase vazia do contemplar. Foi minha religião por muito tempo, um recanto onde ainda me encontrava e voltava a me perder.
Nunca foi um ser abstrato ou um borrão desses que se prende aos sistemas impostos, nem tão pouco era um observador acocorado fora do mundo. Era a realização fantástica de tudo porque eu não construí.
Não tive nada de verdadeiro, nada de real antes de você. Alienei-me de meu fracasso para viver o seu entusiasmo, as suas histórias preenchiam minhas lacunas de forma pitoresca e ácida.
Sem você, eu era o retrato da miséria pessoal, nada mais que o suspiro do oprimido, desânimo de um mundo sem sentimentos bons. Enquanto digo isso me dou conta de que a felicidade é ilusória, não passa da exigência utópica que cultivei por muito tempo.
E seu apelo era para que eu abandonasse as ilusões a respeito da minha condição, era o apelo para abandonar uma condição que precisava de ilusões e ainda quero me enganar.
A realidade arrancou as flores imaginárias, como fizeram meus irmãos anos atrás. Não para que eu suportasse as coisas sem fantasias ou consolo, mas talvez para que não me iludisse que tenho o poder de curar tudo.
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