XVI


Por conta de minha crise minha mãe veio me visitar, sabe que não gosto dela!

Deve se lembrar de quando ela apareceu, logo que me levou para morar com você?

A cara de nojo que fazia ao olhar as nossas coisas e aquele lencinho ridículo que colocava na cara, como se tudo estivesse contaminado e fétido!

É mereceu o apelido que deu a ela: “Dona Pedra”!

Vi diferenças nela dessa última vez, tinha os cabelos bem mais acinzentados, os olhos estavam caídos, não eram mais aqueles olhos superiores e altivos que ostentava no rosto sisudo, sobre aquele pescoço longo, quase vi meiguice.

Trouxe algumas roupas dela que não usava mais, de bom tecido, dizia que era pelas cores, não ficavam bem em uma viúva. Como sei costurar, fez questão que as reformasse para mim e citou as tais grifes que tanto deu valor durante sua vida inteira.

Estava mais entusiasmada com os vestidos que eu. Observei o cenário com atenção, uma felicidade incontida parecia outra pessoa, não a minha mãe. Por um breve momento vislumbrei a possibilidade das pessoas mudarem.

Em certo momento me perguntou se havia visto minha caixinha, como não havia visto, procurei no meio de algumas peças de roupa que sobraram na sacola. Sim, reconhecia a caixa de prata, meu pai trouxe como prêmio de consolação por esquecer o dia de meu aniversário de nove anos.

Ela me contou que sempre que olhava em cima da penteadeira lembrava a cena de meus irmãos destruindo o jardim e que eu catava as migalhas das flores guardando todas nessa caixinha.

Veio-me a cena tal qual acontecera: eu catava os retalhos da destruição de meus irmãos e falava baixinho vou te curar, tudo vai ficar bem!

Como se existisse algo que pudesse desfazer o esgarçamento das flores despetaladas.

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