XVII


Por vezes me pegava com o crucifixo que me deu entre os dedos, não para rezar, apenas pra ter a sensação de quando o amarrou em meu pescoço dizendo que o que nos enforca é a fé.

Todos os cigarros que acendi desde então foram em sua homenagem, não pelo vício, mas pela carga similar a sua, entram em autocombustão por trazerem pólvora na veia.

Estou sozinha desde que me entendo por gente, já tenho noção desse estado faz algum tempo e não ter alguém que confio para desabafar me corta ao meio.

Nunca trouxe a leveza das plumas comigo e ao caminhar com sapatos altos arrastava-os no asfalto até perderem a sola. Às vezes invejava as mulheres que passavam pelos estacionamentos no centro da cidade, escondidas em seus vestidos finos e em seu caminhar elegante. Para ser elegante é preciso ser leve e minha consciência pesa mais de meia tonelada, baby!

Meu consolo era me ater à sua presença, ouvir suas histórias, compartilhar de seus amigos, assim as angústias se calavam, mas não me bastava aquilo tudo, nasci para magoar.

Quando tranquei pela última vez a porta de nosso apartamento esqueci-me de como é chorar, travo a mandíbula e feito animal coagido entrego-me ao silêncio.

A escrita tem sido uma válvula de escape, a única, dissolver-me em palavras alivia o peito e ainda assim, feito Sísifo carrego a pedra de erros nas costas, sem ter a quem recorrer.

Não trago mais o crucifixo que me deu de presente, gostava de trazê-lo entre os seios para me lembrar da maneira que passeava com sua língua entre eles. Precisei penhorar a jóia para não passar fome. Ainda não consegui resgatar nem a jóia e nem a fé!

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