XX


Esforcei-me ao máximo para não falar em certas lembranças com você, mas como de algum modo tudo que escondemos vem à tona na pior hora possível é chegada minha hora. E não há uma maneira mais fácil e menos dolorosa de fazer isso, baby!

Saí de nosso apartamento naquele setembro fatídico acompanhada, bêbada e consciente de minha condição. E imagino que se ficasse você se afastaria de mim aos poucos esqueceria o motivo de ter me tirado daquele beco e talvez tudo o que vivemos dali para frente seria um simples prelúdio. E isso seria insuportável para mim!

Preferi trazer comigo essa imagem irretocável de quase-perfeição.

Parti dona de mim, trazendo uma dor lacerante e um filho seu, que eu não queria, dentro de mim.

Por um tempo usei o álcool como se fosse prescrição médica, servia-me como um anti-realidade que me curava da agonia mental causada pelos breves períodos de sobriedade.

Rejeitei até o fim a ideia de ser como minha mãe e injetei a morte de seu filho na veia, deixei que o cortassem e o levassem de mim, sem piedade, mas não sem dor e culpa.

Agora depois de alguns meses sóbria vejo as coisas com uma clareza insuportavelmente cortante, como que tivesse recebido um dom maldito, o da clarividência. Não aquela que de ver os mortos ou ter pressentimentos ruins. Vejo coisas, lugares, pessoas que parecia nunca ter visto antes. A luz tem um tom branco invasivo, já não é amarelada e fosca, descobri que a paz segura que procurei por algum tempo não existe.

Vejo que as coisas e lugares que desconheço são parte de um passado ébrio e nauseante que vivi e que me persegue, mesmo que eu o aborte todos os dias.

Sinto falta do que não fomos.

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