XXIII


O que a água e sabão não lavam é o sentimento, baby!

Sinto-me suja como antes, do mesmo modo de quando me arrancou da sarjeta!

Não consegui pensar em maneira melhor do que acabar com tudo do que envelhecendo. Criando rugas e manias senis, chorando meus mortos e me olhando sem ver nada de mim. Sábio foi você que morreu cedo, que se entregou ao caos mundano sem freios ou estacionamento.

Penso mais no passado que no presente, quando não são os brancos, buracos negros a me perseguir sem trégua. Riria de mim se eu dissesse que não lembro das suas fuças, pois não lembro.

Recordo-me do cheiro de cigarro que trazia em sua jaqueta de couro surrada e do cheiro daquela pomada que você usava para tudo, desde desodorante a lubrificante, você cheirava Minâncora.

Talvez o suplício maior seja pensar nos vermes, pobrezinhos... Terão que acabar com meus restos, se é que lhes sobrará algo. Pense em alguém que odiava calcinhas, rendida agora em fraldas geriátricas, se houver algo pior que a vergonha de se borrar, eu desconheço.

Você sempre cheirou bem, baby!

Mesmo os cigarros, a maresia e a Minâncora, tudo vindo de você tinha cheiro de vida.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

notas adicionais

XXX

XXXIV