XXIX


Hei de redescobrir a fórmula para calar os gritos que me tomam nesses desertos lotados de personagens que já vivi. Sim, talvez afogá-los em caos íntimos, naquela solução menos dolorosa para beber, que há tempos me ensinara.

Reaprender a secar esperas, dormir o dia inteiro e vagar à noite.

Por um tempo era o poker, hoje é o remanescente jogo de paciência que gira em meu baralho inerte.

Cansei de reclamar do passado e me comportar como um ser caquético e irresoluto.

E vem aquela voz mais ríspida que manda calar a boca e beber até desmaiar. Tudo ao mesmo tempo agora e em alta velocidade!

Pois que se for para chocar contra as coisas que seja para despedaçar, baby!

A voz maldita ecoe dissonante, a junção das falas de vários dos homens que passaram em minha vida, cuja visão da mulher perfeita é a que geme de prazer, aquela que não fala de dores, não chora e só sorri permissiva.

Cansei de ser mulherzinha, estou velha demais pra isso, Jack!

Quero ser massacrada pela angústia mais torturante e agora abri todas as minhas comportas. Não suporto mais o desistir!

Não me doei mais por altruísmo, creio que é o que me falta, me dar a alguém que precise de mim e nessa hora não me sinto essencial.

Esse lugar me passa, tem luxo e zelo em excesso, parece frágil e imexível e isso me incomoda demais.

Outro dia vi um menino maltrapilho, sentado bem em frente ao meu portão, saí e o olhei de lado. Pés sujos, mãos entrelaçadas, trazia um cheiro ocre de abandono, seus olhos miúdos e fixos não me perceberam, parecia devotado ao chão, tive medo que ele me olhasse.

Não sei dizer o motivo, mas tenho medo de tocar o que desconheço e eu não era assim.

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