XXV
Passei os últimos meses tentando evitar, sem sucesso, qualquer sensação que me remetesse a você. Mas não consigo separar a consciência diária dos acontecimentos que me trazem lembranças suas.
Moro num lugar quente, muito quente e o calor enlouquece as pessoas, creia-me!
Queria sair correndo, sem roupa no meio dessa gente que demonstra tanto desprezo por mim. Se estivesse ao meu lado, talvez tivesse a mesma coragem de outrora.
Hoje o máximo que poderia fazer seria compor um ensaio sobre como o derretimento das calotas polares, o aquecimento global mudam o comportamento cognitivo das pessoas. Rindo sozinha e imaginando alguns graus a mais cozinhando os miolos de alguns! Foda-se, não é disso que quero falar, morrerei logo, independente do clima desse mundo de merda!
Surpreendi-me por não estar magoada pelo fato de descobrir amor nesse peito que já julgava morno e entregue ao movimento marítimo do vai e vem das marés. Sei que nesse momento brota um sorrisinho cínico, de canto de boca, bem aquele que esboçava quando tinha razão e eu teimava. É verdade, tenho que me retratar, aprendi que o querer bem é melhor assim, vivenciado dessa maneira tosca e hipócrita que você vivenciara há décadas atrás. E acabei me aconchegando nos braços de alguém que me diz o que quero ouvir. É o maldito vício humano, baby! O apego à mentira doce e afável para sobreviver ao caos egoísta que a realidade nos impõe.
Fugi desesperada de nós e dessa realidade da maneira mais segura que encontrei, tentando me libertar e iludida nessa utopia me amarrei a alguém muito diferente de você.
Sei bem que ressaltava as vantagens de sua vida sem vínculos, que no frigir dos ovos era como a minha antes de me tirar daquele beco, mas sou uma mulherzinha, Jack, no fim sou apenas uma mulherzinha, igual a todas as outras de minha espécie. Eu só queria estar a salvo, encostada num corpo quente, ter alguém para dividir um teto e me contar mentiras doces. Estive cega por um tempo e só consegui alcançar-te quando já estávamos distantes demais para reatar.
“ ─ É tudo mentira, baby!” – ainda me lembro dos seus olhos quando me dizia isso.
Agora que tenho o que sempre quis, falta-me algo, falta-me tudo!
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