XXVI


Nunca fui grande coisa, baby!

Uma menina quieta, uma moça que gostava de sexo, uma mulher debochada e hoje mais calada do que gostaria.

Fui muitas mulheres, mais do que pude suportar em mim, mais do que pude controlar e independente de quem fosse eu era sua!

Quem dera eu me amasse na mesma intensidade que me entreguei a você!

Quem dera tivesse faro para os negócios como para homens errados!

Corri o mundo em busca de aventura e um pouco de diversão, tentando esquecer os meus e quando podia tripudiava, ria, debochava de suas vidas medíocres e insossas, devotadas ao convívio social brando e poético.

Cada vez que caía de bêbada, que me entregava a um estranho ou despertava em alguma esquina fria, era para eles que devotava meu primeiro pensamento. Por vezes até me perguntava o que estariam fazendo naquele momento.

Os quitutes que minha mãe exibia pela manhã soavam-me afronta. Como poderia perder tanto tempo comigo, justo comigo que a desprezava tanto!

Acho que minha revolta nascia ali, por entender cegamente a fuga de meu pai, por não suportar aquela mulher sem atrativos, devotada a tarefas menores.

Meu pai era um porta-retrato sobre a penteadeira dela, que me olhava todos os dias enquanto eu me penteava. Quantas vezes ele me ouviu chorar e guardou minhas confidências, conselho nunca deu, mas esteve mais presente do que minha mãe!

Choveu muito por esses dias e as marés estão mais altas que o normal, o mar quebra mais pesado que nunca. Ontem o mar invadiu a lagoa, a praça, levou carros, ilhou bairros e matou pessoas. Como se algo precisasse ficar cheio e sujo para que eu entendesse que não são apenas faltas que me fazem mal, os excessos também me afetam.

Acordei encharcada de suor e sangue, o suor é a saudade que tenho de minha mãe e o sangue é por saber que metade de meu DNA é aquela fotografia sobre o móvel. 

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