XXVII
De onde vem essa sensação de que as coisas são tão iguais e que mesmo assim ainda posso sentir falta delas?
Algo que me aflige todos os dias são essas molduras que suportam os mesmos quadros há décadas nessas paredes, o mesmo relógio, as fotografias sobre o piano.
O par de chinelas e os elos que se arrastam de madrugada pela casa em silêncio, minha casa hoje se parece com a casa de meus pais. Cortinas empoeiradas, sofás confortáveis para que as pessoas possam cochilar neles, armários lotados de coisas inúteis e o velho silêncio.
Esse pesa e assusta mais que os de outrora, ainda que não tenha mais o impulso de liberdade desenfreada que cultivei, ainda que segura e distante dos atentados invasivos, sinto-me aflita.
O portão range mais que de outras moradas, o calar da noite é mais intenso.
Nossa vida tinha mais música, mais soul, baby!
Já vi mais sentido nas coisas e meus copos eram mais vazios.
Hoje é a incansável xícara de chá sobre o pires e um guardanapo para sufocar o atrito.
Os sons e o atrito não são permitidos por aqui, Jack! Todos dormem, o silêncio é brutal e nauseante.
Por vezes, o barulho de carros acelerados rasga as madrugadas, meu coração dispara na lembrança nossa.
Se não fossem esses rompantes que cortam as noites e minhas esperas vãs, não sei o que seria. Pobre de mim que já fui tão irreverente e soberba, agora entregue ao desespero das noites de insônia.
Sou um arquipélago, como o relógio de sempre na mesma parede mofada avisa a cada segundo que apodreço, os retratos sobre o piano não me deixam esquecer isso.
Sou um morango embolorado e minha mãe dizia que um morango estragado dentro de uma caixa contamina todos os outros. Já estou concordando com ela, quase a entendo...
O que mais me faz falta são os bigodes desalinhados de meu pai.
Deixou-me palhaços e bonecas de louça, mas o colo que tanto quis foi para as putas em seus passeios noturnos, ou para empregadas que o visitavam no sótão durante suas longas noites de insônia.
Deparo-me com a dor de ser órfã, com mãe viva, sem filhos, sem um lugar que me pertença, sem paz.
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