XXVIII


Todos os dias se tornaram quarta-feira de cinzas!

Não há palhaços ou alegorias finas que durem mais de três dias!

Acho que me esqueci ou relutei demais para banir essa fantasia de minha vida, como um elmo que depois de encontrado é difícil devolver para a terra.

Ou aquelas máscaras venezianas que teimamos em pregar em portas e paredes velhas para que nos lembrem de que somos falsos!

Quem sabe mereça ser esquecido, como cadáver jogado em vala comum, indigente!

Guardo você por tempo demais, um relicário que me faz lembrar o que sou, o insólito de solidões mais profundas.

Quisera ter a coragem doutras eras e ser-te ingrata., mas desaprendi!

Mas não há como esquecer sua mão a me puxar da sarjeta, o colo nas noites frias, o silêncio das horas mais certas!

A sua estadia conturbada me deixou o pago de sabedoria e força.

A idade também tem suas recompensas, seja a proximidade do fim ou o aprendizado lacerante.

Meu desejo hoje é deixar de pensar em tudo que não fomos e esquecer o cansaço. Tentarei voltar pra mim, embora acredite que nada é esquecido.

─ O passado é Medusa, baby! Não me verá olhando pra trás, não quero virar pedra!

Carrego seu querer por mais tempo que suportaria qualquer outra coisa, não sei abandonar você feito alegoria e seguir caminho, descobri em hora tardia que não há liberdade, são poucas as escolhas e por mais que me prive desse frisson de lembrar mais marcado em mim está.

Sim, eu sei Jack, sonhei mais do que tive e brindei os sorrisos, me livrei das derrotas estando ao seu lado.

Amar você em me odiar é remédio para meu caos interno, é quase solução.

Definho, pois a memória é bandida me faz enxergar melhor sob as linhas do não dito.

É o sufocar dentro de cada cigarro, evaporar a cada trago que bebo quem dera fosse fácil assim?

Faz três dias as cólicas do aborto de nosso filho me doem, três dias, todo maldito mês é assim.

Seria um homem hoje, se eu não o tivesse matado e talvez me apoiasse no meio desse labirinto. Talvez visse no olhar dele os seus olhos e me doesse menos a falta que me faz. Pior seria vê-lo como o flagelo culpado por ter te abandonado, sempre pode ser pior, baby!

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