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  ............ minhas ostentações se diferem das alheias apenas no teor de volatilidade, nada pode alcançá-las, além do estopim de meus próprios olhos. ............ a vida está tão limpa e parada que periga virar criadouro do mosquito da dengue. ................ o encantamento reside onde as palavras nem sempre podem entrar. ............. o que importa o que sua boca diz, bocas e palavras mentem para se livrar da culpa, numa tentativa inútil de fazer fardos mais leves. sei que cá em meu desespero sinto apenas solidão e desprezo.

XXXVI

Por vezes a solidão é tão acompanhada que me sufoca ainda mais. Estou cercada de estranhos gentis, que a qualquer momento podem se rebelar, tomar meu território, apossarem-se de minhas horas preciosas com assuntos pueris e por fim envenenar meu chá. O jardineiro lá fora cuida de assassinar as flores que cultivei por anos e ainda me cobra por isso. Penso que se deixasse as trepadeiras tomarem o portão e a fachada da casa o ambiente fosse mais propício ao meu isolamento, uma barreira talvez para olhos curiosos. A faxineira cuida para que tudo permaneça limpo e cheirando à alvejante. A cozinheira prepara quitutes com o mesmo sabor dos de minha mãe, pensar que tive raiva deles quando jovem. Desaprendi de sentir, desaprendi de amar, as coisas perderam o frescor e o calor de outrora e me sinto cada vez mais entregue ao sentimento da morte. Custa-me envelhecer, encarar meu rosto tão velho no espelho inda reluzente me incomoda, mas não o suficiente para que eu pare de me pentear. As cois...

XXXV

Aprendi desde muito cedo que ser mulher não era muito bom. Vovô me dizia quatro vezes por dia, cinco vezes por semana: ─ Use seu charme como mulher e enfie a faca como homem! Essa foi uma lição que me valeu muito! Mas mesmo assim sou fragilizada pelo sentimentalismo, alimento o querer bem e me dou mal. Não se gabe por ter salvo minha vida, não foi o único! Meu avô preservou minha sanidade durante toda a fase mais difícil que vivi e me avisa ao ouvido até hoje quando algo pode me machucar demais. Você não foi o único, trago uma cicatriz profunda em meu ombro esquerdo, de uma noite marcada com sexo, suor e sangue. Quem salvou-me foi um travesti mais esperto que eu. Enfim, os homens são mais espertos que as mulheres, mais safos e sinto-me uma tola, traída e salva por eles. Aliás, acho que as fêmeas não passam de joguete nas mãos masculinas, moeda de troca, de sedução e de poder. ─ Um sorriso por uma moeda! – dizia o vovô. Aprendi na marra uma lição bem mais pe...

XXXIV

Somos seres sugestionáveis, escutamos histórias que nos repetem desde a mais remota civilização, somos convencidos que o caminho do meio, nem o esquerdo ou o direito. O morno, nem o quente ou o frio, nem o bom ou o ruim demais, o meio. Esse é o caminho para o bom cristão, pois a luxúria, a gula, os excessos são pecaminosos e sujos. O que nos sobra faz falta para alguém, os desperdícios particulares são mínguas alheias, como se isso fosse mesmo verdade. Por isso não sigo regras, descobri cedo que desmedir os sentimentos e deixar-se à revelia dos excessos é a melhor maneira de se sentir vivo. Os amantes jovens brincam de esconde-esconde, aquela premissa de correr na frente e se camuflar, para se misturar com a paisagem e não ser encontrado e no fim se atingirem com sustos. Pouco muda durante toda a relação, as confissões de amor desmedido, as pequenas punhaladas que fazem sangrar de alegria e de dor, que trazem dor, culpa e dúvida de sermos merecedores desse sentimento. Os ci...

XXXIII

 (...)

XXXII

Suas dúvidas me alimentavam e eu já imaginava onde isso tudo ia dar, não sabia o caminho que percorreríamos para isso, mas não poderia ter outro desfecho que não esse. E quando me dizia que estava com outra mulher, mas não suportava a ideia de eu andar com outros homens, mesmo que isso tenha nos dado mais do que tivéramos até ali. Esse seu machismo desavergonhado, a desculpa perfeita para me fazer ciúmes e me trazer de volta pra casa. Vejo que meus passos eram e ainda são rumo à autodestruição, muitos tentaram me salvar, mas eu não presto, não presto. De certa forma me via refletida em seus olhos negros, pedintes, aquele desespero de quem mal sabe dizer que ama e que repele, expulsa e pune quem tenta. Como meu avô dizia: ─ Venha minha menininha, ver o boi antes dele ir pro abatedouro, espie só o desespero no olho do bicho! E eu, mesmo sem saber via no olho do boi o meu desespero. Sou um amontoado de mentiras doces e de realidades desastrosas. Sou construir, alimentar ...

XXXI

Num dia comum trouxe-me um relógio e uma garrafa de vodca. Mimo perfeito para uma escritora decadente. Um me faria lembrar do tempo perco engendrando filosofias maiores que meu entendimento pode alcançar, o outro para esquecer o resto. Agora vejo que acabo falando feito você, Jack, com aquele ritmo erótico-sarcástico, que imprimia em suas falas e que fez com que eu me apaixonasse tanto. Sim, a palavra esgarça tanto meu sentimento que me comovo e me encho de piedade a me ver ainda tão ignorante e deslumbrada. Por estar distante de qualquer pessoa que me entenda ou que eu possa contar tudo isso sem que pareça uma ladainha sem começo e sem fim. No fundo, acredito que a maioria de nós pousa a cabeça sobre o travesseiro querendo dizer algo e não tem coragem. Se abrir é perigoso, é se desarmar. E se ver frágil ao lado da pessoa com quem divide até a escova de dente é pernicioso. Temos pesadelos que não ousamos nem confessar a nós mesmos. Sim, o mais velho e ancestral companheir...