Postagens

Mostrando postagens de março, 2026

notas adicionais

  ............ minhas ostentações se diferem das alheias apenas no teor de volatilidade, nada pode alcançá-las, além do estopim de meus próprios olhos. ............ a vida está tão limpa e parada que periga virar criadouro do mosquito da dengue. ................ o encantamento reside onde as palavras nem sempre podem entrar. ............. o que importa o que sua boca diz, bocas e palavras mentem para se livrar da culpa, numa tentativa inútil de fazer fardos mais leves. sei que cá em meu desespero sinto apenas solidão e desprezo.

XXXVI

Por vezes a solidão é tão acompanhada que me sufoca ainda mais. Estou cercada de estranhos gentis, que a qualquer momento podem se rebelar, tomar meu território, apossarem-se de minhas horas preciosas com assuntos pueris e por fim envenenar meu chá. O jardineiro lá fora cuida de assassinar as flores que cultivei por anos e ainda me cobra por isso. Penso que se deixasse as trepadeiras tomarem o portão e a fachada da casa o ambiente fosse mais propício ao meu isolamento, uma barreira talvez para olhos curiosos. A faxineira cuida para que tudo permaneça limpo e cheirando à alvejante. A cozinheira prepara quitutes com o mesmo sabor dos de minha mãe, pensar que tive raiva deles quando jovem. Desaprendi de sentir, desaprendi de amar, as coisas perderam o frescor e o calor de outrora e me sinto cada vez mais entregue ao sentimento da morte. Custa-me envelhecer, encarar meu rosto tão velho no espelho inda reluzente me incomoda, mas não o suficiente para que eu pare de me pentear. As cois...

XXXV

Aprendi desde muito cedo que ser mulher não era muito bom. Vovô me dizia quatro vezes por dia, cinco vezes por semana: ─ Use seu charme como mulher e enfie a faca como homem! Essa foi uma lição que me valeu muito! Mas mesmo assim sou fragilizada pelo sentimentalismo, alimento o querer bem e me dou mal. Não se gabe por ter salvo minha vida, não foi o único! Meu avô preservou minha sanidade durante toda a fase mais difícil que vivi e me avisa ao ouvido até hoje quando algo pode me machucar demais. Você não foi o único, trago uma cicatriz profunda em meu ombro esquerdo, de uma noite marcada com sexo, suor e sangue. Quem salvou-me foi um travesti mais esperto que eu. Enfim, os homens são mais espertos que as mulheres, mais safos e sinto-me uma tola, traída e salva por eles. Aliás, acho que as fêmeas não passam de joguete nas mãos masculinas, moeda de troca, de sedução e de poder. ─ Um sorriso por uma moeda! – dizia o vovô. Aprendi na marra uma lição bem mais pe...

XXXIV

Somos seres sugestionáveis, escutamos histórias que nos repetem desde a mais remota civilização, somos convencidos que o caminho do meio, nem o esquerdo ou o direito. O morno, nem o quente ou o frio, nem o bom ou o ruim demais, o meio. Esse é o caminho para o bom cristão, pois a luxúria, a gula, os excessos são pecaminosos e sujos. O que nos sobra faz falta para alguém, os desperdícios particulares são mínguas alheias, como se isso fosse mesmo verdade. Por isso não sigo regras, descobri cedo que desmedir os sentimentos e deixar-se à revelia dos excessos é a melhor maneira de se sentir vivo. Os amantes jovens brincam de esconde-esconde, aquela premissa de correr na frente e se camuflar, para se misturar com a paisagem e não ser encontrado e no fim se atingirem com sustos. Pouco muda durante toda a relação, as confissões de amor desmedido, as pequenas punhaladas que fazem sangrar de alegria e de dor, que trazem dor, culpa e dúvida de sermos merecedores desse sentimento. Os ci...

XXXIII

 (...)

XXXII

Suas dúvidas me alimentavam e eu já imaginava onde isso tudo ia dar, não sabia o caminho que percorreríamos para isso, mas não poderia ter outro desfecho que não esse. E quando me dizia que estava com outra mulher, mas não suportava a ideia de eu andar com outros homens, mesmo que isso tenha nos dado mais do que tivéramos até ali. Esse seu machismo desavergonhado, a desculpa perfeita para me fazer ciúmes e me trazer de volta pra casa. Vejo que meus passos eram e ainda são rumo à autodestruição, muitos tentaram me salvar, mas eu não presto, não presto. De certa forma me via refletida em seus olhos negros, pedintes, aquele desespero de quem mal sabe dizer que ama e que repele, expulsa e pune quem tenta. Como meu avô dizia: ─ Venha minha menininha, ver o boi antes dele ir pro abatedouro, espie só o desespero no olho do bicho! E eu, mesmo sem saber via no olho do boi o meu desespero. Sou um amontoado de mentiras doces e de realidades desastrosas. Sou construir, alimentar ...

XXXI

Num dia comum trouxe-me um relógio e uma garrafa de vodca. Mimo perfeito para uma escritora decadente. Um me faria lembrar do tempo perco engendrando filosofias maiores que meu entendimento pode alcançar, o outro para esquecer o resto. Agora vejo que acabo falando feito você, Jack, com aquele ritmo erótico-sarcástico, que imprimia em suas falas e que fez com que eu me apaixonasse tanto. Sim, a palavra esgarça tanto meu sentimento que me comovo e me encho de piedade a me ver ainda tão ignorante e deslumbrada. Por estar distante de qualquer pessoa que me entenda ou que eu possa contar tudo isso sem que pareça uma ladainha sem começo e sem fim. No fundo, acredito que a maioria de nós pousa a cabeça sobre o travesseiro querendo dizer algo e não tem coragem. Se abrir é perigoso, é se desarmar. E se ver frágil ao lado da pessoa com quem divide até a escova de dente é pernicioso. Temos pesadelos que não ousamos nem confessar a nós mesmos. Sim, o mais velho e ancestral companheir...

XXX

O que nos afasta da realidade é a civilidade, é o egoísmo, baby! Não direi que fujo à regra, querem seu melhor, mas não dão nem uma migalha de si. Quero o melhor dos outros, mas me guardo em retaguardas para não me ferir gravemente, salvo raras exceções. A civilidade é o oco do mundo, compram-nos presentes caros, fantasias baratas e reduzem a existência a um espetáculo burlesco. ─ São os tópicos! É o carnaval, baby! - como você bem dizia - Uma alegoria transitória que se desfaz em poucos dias! Nos deixamos envolver com a música, com a festa e a dança e esquecemos que a pintura e os disfarces não duram. Ainda admiro você, Kerouac, tinha uma sinceridade crua, quase agressiva, mas não me decepcionava, nunca me decepcionou. Tinha a capacidade de me foder sem palavras doces e de dizer ainda me penetrando: ─ É só sexo, baby! É só mais uma para mim! Não se apaixone! Por mais que doesse escutar aquilo, naquele momento, eu segurava firme em seus braços e implorava por mais! ...

XXIX

Hei de redescobrir a fórmula para calar os gritos que me tomam nesses desertos lotados de personagens que já vivi. Sim, talvez afogá-los em caos íntimos, naquela solução menos dolorosa para beber, que há tempos me ensinara. Reaprender a secar esperas, dormir o dia inteiro e vagar à noite. Por um tempo era o poker, hoje é o remanescente jogo de paciência que gira em meu baralho inerte. Cansei de reclamar do passado e me comportar como um ser caquético e irresoluto. E vem aquela voz mais ríspida que manda calar a boca e beber até desmaiar. Tudo ao mesmo tempo agora e em alta velocidade! Pois que se for para chocar contra as coisas que seja para despedaçar, baby! A voz maldita ecoe dissonante, a junção das falas de vários dos homens que passaram em minha vida, cuja visão da mulher perfeita é a que geme de prazer, aquela que não fala de dores, não chora e só sorri permissiva. Cansei de ser mulherzinha, estou velha demais pra isso, Jack! Quero ser massacrada pela angústia ...

XXVIII

Todos os dias se tornaram quarta-feira de cinzas! Não há palhaços ou alegorias finas que durem mais de três dias! Acho que me esqueci ou relutei demais para banir essa fantasia de minha vida, como um elmo que depois de encontrado é difícil devolver para a terra. Ou aquelas máscaras venezianas que teimamos em pregar em portas e paredes velhas para que nos lembrem de que somos falsos! Quem sabe mereça ser esquecido, como cadáver jogado em vala comum, indigente! Guardo você por tempo demais, um relicário que me faz lembrar o que sou, o insólito de solidões mais profundas. Quisera ter a coragem doutras eras e ser-te ingrata., mas desaprendi! Mas não há como esquecer sua mão a me puxar da sarjeta, o colo nas noites frias, o silêncio das horas mais certas! A sua estadia conturbada me deixou o pago de sabedoria e força. A idade também tem suas recompensas, seja a proximidade do fim ou o aprendizado lacerante. Meu desejo hoje é deixar de pensar em tudo que não fomos e esq...

XXVII

De onde vem essa sensação de que as coisas são tão iguais e que mesmo assim ainda posso sentir falta delas? Algo que me aflige todos os dias são essas molduras que suportam os mesmos quadros há décadas nessas paredes, o mesmo relógio, as fotografias sobre o piano. O par de chinelas e os elos que se arrastam de madrugada pela casa em silêncio, minha casa hoje se parece com a casa de meus pais. Cortinas empoeiradas, sofás confortáveis para que as pessoas possam cochilar neles, armários lotados de coisas inúteis e o velho silêncio. Esse pesa e assusta mais que os de outrora, ainda que não tenha mais o impulso de liberdade desenfreada que cultivei, ainda que segura e distante dos atentados invasivos, sinto-me aflita. O portão range mais que de outras moradas, o calar da noite é mais intenso. Nossa vida tinha mais música, mais soul, baby! Já vi mais sentido nas coisas e meus copos eram mais vazios. Hoje é a incansável xícara de chá sobre o pires e um guardanapo para sufocar ...

XXVI

Nunca fui grande coisa, baby! Uma menina quieta, uma moça que gostava de sexo, uma mulher debochada e hoje mais calada do que gostaria. Fui muitas mulheres, mais do que pude suportar em mim, mais do que pude controlar e independente de quem fosse eu era sua! Quem dera eu me amasse na mesma intensidade que me entreguei a você! Quem dera tivesse faro para os negócios como para homens errados! Corri o mundo em busca de aventura e um pouco de diversão, tentando esquecer os meus e quando podia tripudiava, ria, debochava de suas vidas medíocres e insossas, devotadas ao convívio social brando e poético. Cada vez que caía de bêbada, que me entregava a um estranho ou despertava em alguma esquina fria, era para eles que devotava meu primeiro pensamento. Por vezes até me perguntava o que estariam fazendo naquele momento. Os quitutes que minha mãe exibia pela manhã soavam-me afronta. Como poderia perder tanto tempo comigo, justo comigo que a desprezava tanto! Acho que minha revol...

XXV

  Passei os últimos meses tentando evitar, sem sucesso, qualquer sensação que me remetesse a você. Mas não consigo separar a consciência diária dos acontecimentos que me trazem lembranças suas. Moro num lugar quente, muito quente e o calor enlouquece as pessoas, creia-me! Queria sair correndo, sem roupa no meio dessa gente que demonstra tanto desprezo por mim. Se estivesse ao meu lado, talvez tivesse a mesma coragem de outrora. Hoje o máximo que poderia fazer seria compor um ensaio sobre como o derretimento das calotas polares, o aquecimento global mudam o comportamento cognitivo das pessoas. Rindo sozinha e imaginando alguns graus a mais cozinhando os miolos de alguns! Foda-se, não é disso que quero falar, morrerei logo, independente do clima desse mundo de merda! Surpreendi-me por não estar magoada pelo fato de descobrir amor nesse peito que já julgava morno e entregue ao movimento marítimo do vai e vem das marés. Sei que nesse momento brota um sorrisinho cínico, de canto...

XXIV

As esperas são pequenas mortes, baby! Perdi a conta de quantas vezes esperei algo extraordinário acontecer e acabei me vendendo para manter nossa relação, ovos e bebida. A dimensão das coisas não me assustava tanto, sei que não me cobrou muito, mas nesses tempos que só tenho a mim, vejo que pode ter custado mais me tirar das ruas e me manter limpa. Nunca aprendi a usar as palavras como você, sempre lidei melhor com a bebida. Se algo me afetava eram as garrafas vazias que ouviam meus soluços de gargalo. Quisera eu, baby, uma mulher que nasceu nos melhores berços e acabou nas ruas, saber me expressar tão bem quanto você. Mas as coisas não são assim, como queremos. Tudo foge ao controle e só agora entendo isso. Devotei minha vida a um sonho, quis a liberdade e provei por alguns anos amostras dela e no restante do tempo vivi das lembranças dela! Não fiz a conta de quanto paguei, ou de quanto pagou. Só agora tenho noção que foram os melhores tempos de minha vida. Enfim...

XXIII

O que a água e sabão não lavam é o sentimento, baby! Sinto-me suja como antes, do mesmo modo de quando me arrancou da sarjeta! Não consegui pensar em maneira melhor do que acabar com tudo do que envelhecendo. Criando rugas e manias senis, chorando meus mortos e me olhando sem ver nada de mim. Sábio foi você que morreu cedo, que se entregou ao caos mundano sem freios ou estacionamento. Penso mais no passado que no presente, quando não são os brancos, buracos negros a me perseguir sem trégua. Riria de mim se eu dissesse que não lembro das suas fuças, pois não lembro. Recordo-me do cheiro de cigarro que trazia em sua jaqueta de couro surrada e do cheiro daquela pomada que você usava para tudo, desde desodorante a lubrificante, você cheirava Minâncora. Talvez o suplício maior seja pensar nos vermes, pobrezinhos... Terão que acabar com meus restos, se é que lhes sobrará algo. Pense em alguém que odiava calcinhas, rendida agora em fraldas geriátricas, se houver algo pior que a ver...

XXII

Tenho o péssimo hábito de querer boxear com pugilistas mais fortes que eu, dessa vez desafiei Holyfield, um peso-pesado e eu estava de olhos abertos e sóbria, só podia mesmo estar querendo levar uma surra. Jack, no fundo, sabemos o fim da história e não sei o motivo, mas a gente ainda insiste. Passei minha vida desistindo de tudo que era bom para mim. Achava que era autodefesa, uma tentativa de me proteger, mas sei que era medo, medo de enfrentar uma escolha, não sendo eu nem peso-pena, ou seja, sendo só uma mulherzinha que mal sabe bater! Outro dia senti aquela coisa de novo, aquela sensação enganosa que nos ludibria com a frase: “vale a pena”. Mas sabe a voz de meu avô, sim ela voltou também! Mais uma vez ela me dizia: “vai se machucar”. Ouço a voz dele só em iminência de perigo e na maioria das vezes fujo, mas deixei passar, sufoquei, mesmo de alguma forma sabendo que era verdade o que dizia. Até quando vou pagar para ver? Até quando vou poder pagar para ver? E é cada vez ...

XXI

Sabe do pavor que tenho por certos insetos, não é baby! Deparei-me com baratas, pernilongos e aranhas por muito tempo. As coisas são diferentes hoje, quase não os vejo mais, nem sei se porque dedetizam ou porque minha visão está cada vez mais fraca. Outro dia vi uma aranha espreitando m minha sala, ela se esgueirava pelo tapete se aproveitando da pouca luz. Sou ruim, Jack, muito ruim. Observei a pobre fazendo o trajeto pela extensão de todo o tapete, mais ou menos uns dois metros e meio. Acendi um cigarro e esperei que ela chegasse bem perto de meus pés, então a queimei com a bituca do cigarro. Somos insetos nas mãos de outros seres humanos. Vulneráveis e à mercê de suas vontades cruéis. Sei que serei exterminada como a aranha que matei.

XX

Esforcei-me ao máximo para não falar em certas lembranças com você, mas como de algum modo tudo que escondemos vem à tona na pior hora possível é chegada minha hora. E não há uma maneira mais fácil e menos dolorosa de fazer isso, baby! Saí de nosso apartamento naquele setembro fatídico acompanhada, bêbada e consciente de minha condição. E imagino que se ficasse você se afastaria de mim aos poucos esqueceria o motivo de ter me tirado daquele beco e talvez tudo o que vivemos dali para frente seria um simples prelúdio. E isso seria insuportável para mim! Preferi trazer comigo essa imagem irretocável de quase-perfeição. Parti dona de mim, trazendo uma dor lacerante e um filho seu, que eu não queria, dentro de mim. Por um tempo usei o álcool como se fosse prescrição médica, servia-me como um anti-realidade que me curava da agonia mental causada pelos breves períodos de sobriedade. Rejeitei até o fim a ideia de ser como minha mãe e injetei a morte de seu filho na veia, deixei que o...

XIX

Conseguia ficar horas velando seu sono, como se uma loucura me tomasse os olhos e trouxesse-me a quietude quase vazia do contemplar. Foi minha religião por muito tempo, um recanto onde ainda me encontrava e voltava a me perder. Nunca foi um ser abstrato ou um borrão desses que se prende aos sistemas impostos, nem tão pouco era um observador acocorado fora do mundo. Era a realização fantástica de tudo porque eu não construí. Não tive nada de verdadeiro, nada de real antes de você. Alienei-me de meu fracasso para viver o seu entusiasmo, as suas histórias preenchiam minhas lacunas de forma pitoresca e ácida. Sem você, eu era o retrato da miséria pessoal, nada mais que o suspiro do oprimido, desânimo de um mundo sem sentimentos bons. Enquanto digo isso me dou conta de que a felicidade é ilusória, não passa da exigência utópica que cultivei por muito tempo. E seu apelo era para que eu abandonasse as ilusões a respeito da minha condição, era o apelo para aband...

XVIII

O caso é que éramos muito jovens e eu adorava me exibir para você, usar o charme que tinha para ludibriar trouxas e me gabar depois! Engano-me dizendo que não sou mais assim, embora ainda queira arrumar alguém que trepe comigo pelo menos duas vezes seguidas antes de pegar no sono e me trate com o desprezo que encontrei nos becos da cidade baixa. Chove agora depois do calor infernal, aqui não existem as quatro estações e creio que se Miller descesse aos trópicos descobrisse a real intensidade de seus escritos sobre a carne castigada pelo calor, ele seria menos voraz. Serão dias de chuva sem meio termo, tudo é suor e afetamento, pois não há remédio para esse meu estágio desgastado e febril. Quem dera tivesse só vocação para o martírio, o clima já derriçaria com os dias úmidos e mofados e as noites seriam devotadas apenas para o prazer. Em março o inferno é aqui, não é branco nem colorido, é marrom acinzentado. Queria estar chapada, sob o efeito de um barbitúrico qualquer que me afasta...

XVII

Por vezes me pegava com o crucifixo que me deu entre os dedos, não para rezar, apenas pra ter a sensação de quando o amarrou em meu pescoço dizendo que o que nos enforca é a fé. Todos os cigarros que acendi desde então foram em sua homenagem, não pelo vício, mas pela carga similar a sua, entram em autocombustão por trazerem pólvora na veia. Estou sozinha desde que me entendo por gente, já tenho noção desse estado faz algum tempo e não ter alguém que confio para desabafar me corta ao meio. Nunca trouxe a leveza das plumas comigo e ao caminhar com sapatos altos arrastava-os no asfalto até perderem a sola. Às vezes invejava as mulheres que passavam pelos estacionamentos no centro da cidade, escondidas em seus vestidos finos e em seu caminhar elegante. Para ser elegante é preciso ser leve e minha consciência pesa mais de meia tonelada, baby! Meu consolo era me ater à sua presença, ouvir suas histórias, compartilhar de seus amigos, assim as angústias se calavam, mas não me bastava aquilo tu...

XVI

Por conta de minha crise minha mãe veio me visitar, sabe que não gosto dela! Deve se lembrar de quando ela apareceu, logo que me levou para morar com você? A cara de nojo que fazia ao olhar as nossas coisas e aquele lencinho ridículo que colocava na cara, como se tudo estivesse contaminado e fétido! É mereceu o apelido que deu a ela: “Dona Pedra”! Vi diferenças nela dessa última vez, tinha os cabelos bem mais acinzentados, os olhos estavam caídos, não eram mais aqueles olhos superiores e altivos que ostentava no rosto sisudo, sobre aquele pescoço longo, quase vi meiguice. Trouxe algumas roupas dela que não usava mais, de bom tecido, dizia que era pelas cores, não ficavam bem em uma viúva. Como sei costurar, fez questão que as reformasse para mim e citou as tais grifes que tanto deu valor durante sua vida inteira. Estava mais entusiasmada com os vestidos que eu. Observei o cenário com atenção, uma felicidade incontida parecia outra pessoa, não a minha mãe. Por um breve momento vislumbre...

XV

Tive outra crise de bulimia nervosa, doença que não me perturbava desde os treze anos. Naquela época não entendia e nem os médicos sabiam o motivo das crises. Mesmo com fome, meu corpo se negava a segurar qualquer coisa que comesse. De forma inconsciente, me punia por não fazer todas as coisas que tinha vontade. E num ato de revolução berrava com dores descomunais, nenhum remédio me curou! Ardi em febre por sete dias, a pele latejava entre brotoejas que estouravam feito a verdade que explodia por dentro. Insatisfeita com a vida que me impunham, sentia nojo de minha imagem e de tudo que representava para aqueles que cobravam algo de mim. Ora, eu tinha tudo que uma moça poderia querer! Vestiam-me nos mantos da vitória social burguesa, formavam-me num colégio católico e iam me casar com um político, ou um advogado, um médico, quem sabe. Ele viraria meu dono, me sodomizaria e eu viveria ali apenas pra servi-lo na cama e na mesa, a mucama de luxo! Só podia vomitar, regurgitar a sopa imposta...

XIV

O engraçado é querermos colocar no outro a culpa de nossos defeitos. Não sei bem porque meu avô materno era meu ídolo, acho que por um tempo o amei mais que ao meu pai. Talvez por ele ser muito permissivo comigo, deveria ter me posto freios antes de eu desembestar! Sinto que aquela frase foi pior do que ser estuprada ou cuspida por um estranho! E acabo retornando àquela padaria cada vez que tenho que escolher algo. Carrego o vício de não saber escolher, aliás, o mal é mais grave, não escolho nunca, dou-me apenas o direito eterno das pequenas dúvidas e das grandes desistências. Minha inocência foi perdida ali, no meio daqueles doces, com o cheiro de baunilha no ar! Para mim não era apenas escolher um e sim abdicar das infinitas possibilidades contidas em cada opção desprezada. E a farsa continua e se repete como ciclos de sofrimento absoluto, eu me embriagando e seguindo caminhos perigosos de desistência. Meu avô sussurrou-me ao pé do ouvido: “você pode escolher o que quiser, minha lind...